O poço é mais embaixo

Dizem que o antidepressivo é a pílula mágica, a pílula da felicidade, que estão medicalizando e industrializado a dor. Rótulos e mais rótulos. Talvez sim, mas só médico charlatão indica remédio que o paciente não precisa. E só paciente desinformado e conformista que aceita.

Convenhamos, a depressão e os demais transtornos mentais são mais que dor, vão além da tristeza e da frustação. São doenças que nos deixam prostados, indiferentes, amargurados. Elas nos jogam nas insignificâncias e Invisibilidades. A irmandade que já vivenciou isso sabe do que estou falando.

Imagina você receber o amor dos filhos; poder andar, falar e escutar; olhar o marido tentando te agradar; ter acesso à comidas saborosas, viagens dos sonhos; olhar o vigor da natureza se doando todo dia… e ainda assim não dar valor em nada disso, nada, nada.

Cresce uma culpa danada e uma vontade de não estar aqui, você se sente uma ingrata, pequena, lixo. Imagina não poder falar desses sentimentos pensando que vão te julgar, chamar de vítima, fria, fresca e outros rótulos e mais rótulos. Fui encolhendo na cama na posição fetal, cabeça coberta, distante de tudo e de todos.

Eu pensava em morte constantemente, não em suicídio, como fez meu bisavô, imigrante espanhol que foi tentar a vida no Brasil em meados de 1930. Ele se jogou num poço. Meu pai diz que meu avô também tentou várias vezes e de diversas formas, mas não conseguiu dar fim a própria vida, até ser levado por um câncer. Meu pai teve problemas com alcoolismo, até 16 anos atrás, outra forma de fuga. Recentemente, dois primos se enforcaram. Um de meia idade, esquizofrenia, outro adolescente de tudo, sem saber manejar conflitos familiares, se envolveu com drogas, se suicidou, deixando a namorada grávida. Enfim, todos fatos relacionados com problemas de saúde mental. Parece a saga dos Buendía, do livro Cem Anos de Solidão, aonde fatos se repetem, mas é vida real.

Voltando, eu pensava em morte como uma válvula de escape, não dá tristeza, mas de não me sentir hábil para devolver ao mundo tudo o que ele me deu. Quando criança e jovem eu costumava ir a igreja. Depois perdi a fé por não ver as atitudes dos homens condizentes com as palavras. Na depressão isso intensifica, se perde a fé e a esperança, e a vontade de ser humano. É um vazio, escuro, enlouquecedor.

Olhava minha filha dançar e cantar e sabia que se eu fizesse alguma besteira ela poderia murchar como eu. Via meu filho falar em criar um aplicativo, ou, virar astronauta, aí lembrava que já tive sonhos um dia, não podia ser um pesar nos sonhos deles. Eles me viam definhando, tentavam me alegrar de qualquer jeito, eu vocês já sabem, sem reação, querendo dormir para o dia passa logo, mas o sono não chegava, madrugadas em claro, olheiras denunciantes.

Certo dia minha filha apareceu com um quadro. Falei que flor linda, ela disse é uma flor feita com monte de corações que se encontram no meio, pintei para você. Naquele dia chorei. Agora escrevendo chorei de novo. Geralmente sou de segurar as lágrimas.

Logo depois disso, mais um anjo do céu apareceu, só pode ser, ela era minha vizinha na mesma rua no Brasil, e não nos conhecíamos lá, pasmem, ela veio ser minha vizinha e amiga aqui na Alemanha. Um dia veio em casa e disse você não está bem, como posso te ajudar, até então, não tínhamos intimidade, éramos duas estrangeiras também uma para outra. Respondi eu não sei o que eu tenho, ela com o olhar aberto voltado para o outro, disse: acho que você está com depressão. Eu mal conseguia respirar, meu corpo era um fardo. No mesmo instante ela pegou o telefone, ligou para a psicóloga dela no Brasil, nos colocou para conversar e assim iniciei o tratamento que já vai para quatro meses.

Me sinto muito melhor, gostei da alusão que o antidepressivo é uma esponja de aço, ele pode dar brilho, mas a força quem tem que fazer é a gente. Não concordo com os rótulos como pílula mágica, pílula da felicidade, o poço é mais embaixo, nem todo mundo busca mera alienação. Quem chega até os antidepressivos, pelos caminhos que eu cheguei, procura saúde para continuar a jornada longe do poço.

Saliento que os antidepressivos não são a única forma de tratamento, bom estar vinculado com terapia para tratar a personalidade; exercícios e dieta para tratar o corpo, e fé que nos eleva. O cérebro é complexo e misterioso demais para se satisfazer com uma só medida. Acho que saúde mental deveria fazer parte da grade curricular de ensino.

Em suma, quero ser humana com prazer, ética e responsabilidade em viver, ainda que num mundo tão caótico. Minha energia e ânimo voltaram. Minhas neuras trato com a psicóloga uma vez por semana por Skype. Os fantasmas, não sumiram, mas agora eu digo para eles: xiu fica quieto que eu estou falando.

Já consigo exercer a gentileza que tanto prezo em cada canto que passo. Aos poucos vou assumindo meus passos. Percebe se minha mudança até pelos textos, de quando comecei esse blog e de agora. É muito cedo para dizer estou curada, é muito cedo para saber os efeitos colaterais, mas, nunca é tarde para assumir o dom de viver. Agarre o seu.

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