O lado bom da depressão. 

Tentando exercitar a positividade, vou relatar 7 fatos que estão sendo  bons para mim durante o tratamento da depressão, tudo a ver com redescobertas e desmitificaçoes:

1) Voltei a escrever, livre e poeticamente falando, a criatividade adormecida foi despertada na dor.

2) Dou valor a cada minuto de saúde pois sei como é viver acuada numa cama cheia de dores não identificadas em raio-x e ultrassom.

3) Cultivar o amor fundamental. Como raiz, caule e folhas são a família e amigos que te amam, mas às vezes não vemos as flores vindas dali. 

4) Reconheci que aprender conviver é o melhor caminho para viver, caminho que temos que construir, reconstruir e decorar persistentemente.

5) Ter a natureza como conselheira: os raios do sol, o barulho da chuva e dos pássaros, os jardins verdes com suas borboletas, o ar que respiramos. Pôr flores na concha. Dádivas diárias.

6) Quebrei meu próprio preconceito, busquei ajuda. Logo, entendi melhor o trabalho da psiquiatria e da psicologia. Esqueci os rótulos, pus a saúde em pauta. Pesquiso e converso sobre depressão. 

7) O sono, a solidão e o silêncio são excelentes e exigentes professores. Lecionam um prazer intenso, revigorante e revelador. Resta escutar e seguir tais ensinamentos. Hoje, cada noite bem dormida conto como jóia para meu despertar.

No entanto, apesar de dizer isso tudo de bom, a depressão não é uma experiência que desejo para ninguém para chegar à tais conclusões. Não se trata de uma tristezinha, ou, de uma tristezona, mas sim de uma doença que atinge a mente e vai minando todos nossos sentidos.  De repente tudo vai perdendo a graça, o som incômoda, o paladar se esvai, o olhar se apaga, você evita contato, cheira o fim. Nossa gente é um vazio tão grande… Você até quer se agarrar a fé, mas como disse não vê sentido em nada. E como se não bastasse o corpo dói, a energia falta, o rosto desconfigura, a luz incômoda, o sono fica longe e não há descanso. 

A depressão que tive foi considerada de moderada para alta, provavelmente por fatores genéticos e influência climática (a tal falta de sol). Apesar de eu sentir que o que mais me incômoda são as desigualdades e máscaras sociais: o caminho seguido pela humanidade. Mesmo motivo que oprime muitas pessoas e não só neste século.  Não concordo que a depressão seja o mal do século, ela acompanha o homem há muito mais tempo. Vide a biografia de Santos Dumont, Fernando Pessoa, Van Gogh, Machado de Assis, Martinho Lutero, Nietzsche, e muitos mais. A diferença é que agora podemos mensurar e tratar.  No meu caso, sendo expatriada tive que lidar com novos tipos de adaptações, e o fato de não conseguir me comunicar efetivamente foi o gatilho. Após o tratamento descobri o quanto estava resistente, indiferente e distante dos 7 fatos citados à cima. 

Aí lembrei do olhar petrificador. Na mocidade eu frequentava uma igreja, durante a semana íamos visitar, como chamavam, os necessitados. Numa ocasião fomos na casa de uma moça com depressão severa, naquela época não entendia muito o que isso significava, ela não levantava da cama nem para comer e nem para tomar banho, quando chegávamos perto ela não nos mandava sair mas tinha um olhar petrificador que parecia que ia nos dizimar. Tal como o olhar da Medusa num quadro que vi no Museu Louvre o qual muito me chamou atenção. Os “irmãos” diziam que ela estava possuída… estava sim possuída das desgraças desse mundo, doente por falta de correto funcionamento cerebral, doente no âmago da humanidade, estava sim sem graça para sentir a vida.

Medusa, 1597 by Caravaggio.
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10 comentários

  1. Fico muito contente de você conseguir fazer todas essas coisas lindas e principalmente escrever, porque aí tiro uma casquinha. Você sabe o gatilho, sabe o diagnóstico, está em tratamento, escreve lindos textos e tem uma família que te apoia. Estamos dando um passo de cada vez nesse mal dos milênios.

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