Amor-perfeito

Preciso ficar na inércia para ver se recupero a força, mas não tem jeito, a vida me chama de várias formas: na máquina de lavar roupas, no fedor do lixo para por na rua, no horário restrito do trêm,  no jogo de super trunfo e ajuda nas tarefas escolares com os filhos, e  até na flor de amor-perfeito que nasceu entre os ladrilhos da porta de casa.

Levanto o corpo, a alma está inquieta e o espírito adormecido. Saio contra a neve quero sentir seu queimar na minha pele. Quero vida. Tento vencer o dia, perco o sentido nas tarde, não durmo aquela noite completa de sono reparador. 

Dias atrás tive uma conversa aberta com uma amiga, aquelas do tipo jóia rara, expus minhas idéias estranhas, disse que às vezes acho que estou ficando louca, só que quando vejo o bando de gente com suas caras de infelizes, correndo para o trabalho de manhã, espremidas na aglomeração, ou, presas nos seus carros no tráfego. Quando percebo o tamanho da demanda que estão colocando sobre as crianças, presos em suas salas de aulas, inertes em conteúdos por vezes inóspitos, formando mais um de nós. Então, observo o tamanho da falta de referências para nós e para elas. Como escape, idealizamos férias e diversões, passamos os dias desejando a chegada dos finais de semana, sem aproveitar a semana, vidas e anos a passar: pressa, rush, deadlines, tarefas. 

Continuado, quando sinto que a crença é discurso sem prática; que apesar de diferentes roupas, a maioria usa o mesmo uniforme, a farda de um sistema que nos corroí, disforma, sem tempo para ser, o relógio nos comanda. Tic-tac. Tic-tac. Ah, quando vejo tudo isso, noto que a loucura é coletiva, sou normal, ou melhor, a normalidade não existe, como não existe a verdade absoluta.

Duro olhar com esses óculos escuros, vejo a evolução constante mas em passos lentos porque somos pose em vez de possuidor: do sistema, da educação, das crenças. Temos a ilusão de que muito temos, que fazemos e acontecemos e tal, quando, na minha opinião, a mais valia está no aproveitar o dia. Viver não é só sobreviver. Opino porque prefiro ser realista do que alienada, ainda que seja muito pesado, é libertador saber que podemos ser mais, transmutar, transgredir, progredir.

 A minha depressão vai passar, a pressão vai continuar, procuro aprender essa regra do terTer força para ser amor-perfeito.

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1 comentário

  1. A pressão do capitalismo continua e muita gente “enlouquece” com ela mesmo, Cris. Com ou sem diagnóstico. Só que tem gente acho que para de se importar, só faz o que é pedido, não reclama do preço das coisas, não luta pelo coletivo, não olha com candura para o próximo. Ficam inertes, sobrevivendo. Por isso concordo com você que temos que viver agora, nesse instante, fazer qualquer coisa que nos estimule. A depressão não é dona da gente e nem o sistema. Podemos aprender a contornar tudo em nosso favor.

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